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Eu também te acompanho entre os habitantes do céu que te rodeiam.
Eu, morto, Osíris, penetro à minha vontade ora na região dos mortos,
ora na dos vivos sobre a Terra, em todas as partes às quais meu desejo me conduz!"
-trecho do segundo capítulo do Livro dos Mortos
Egito, 2575 a.C.
A primeira das grandes pirâmides estava quase pronta, a obra que escreveria para sempre o nome do faraó Khufu - Quéops em grego - na história. Numa das últimas noites de seu reinado de vinte e três anos de opressão sobre o povo egípcio, uma grande festa estava acontecendo.
Adom, um dos mais poderosos sacerdotes da época, estava com o olhar fixo em sua amante predileta, Mahaila, como os hebreus chamavam sua dançarina, um presente do faraó por sua lealdade e serviços prestados elevando o nome da tirania.
Ela era perfeita. Dançava apenas quando sabia que ele estava presente. Carregava consigo a sensualidade máxima que uma mulher poderia herdar dos deuses, e ao mesmo tempo um semblante quase infantil... Os persas a chamariam de Mahliqa, "anjo", e era tão ou mais bonita que Nyla, uma das mais formosas princesas do poderoso Egito.
Pão, vinho e cerveja em fartura circulavam. Ali estavam o vizir, o chanceler, sacerdotes, escribas e outras personalidades da classe dominante. Adom segurava o impulso de possuí-la ali mesmo, entre os convivas. Um dos homens pediu a palavra, e ele se aproveitou desse pequeno intervalo para sumir por entre as sombras do salão, indo atrás de sua linda dançarina.
Entrou num dos aposentos do opulento palácio real, e lá estava ela: Kaineferu. Seminua, já o esperava de pernas afastadas.
-O faraó é o superintendente de todas as coisas proporcionadas pelo céu e produzidas pela terra! - bradou alguém no salão, no mesmo momento em que Adom beijava sua amante e apalpava seus seios pequenos e duros, como os de uma adolescente.
-Não fiz mal à nenhuma filha de homem pobre, não oprimi nenhuma viúva, nem expulsei nenhum pastor. Apenas uns parcos homens miseráveis durante meu governo, mas nada que impeça a glória de meu nome ostentada pela obra faraônica que se aproxima! - disse alto o faraó, e Adom ouviu. Segurou um riso cínico, enquanto penetrava a carne úmida e quente de Kaineferu. Ela o enlaçou com as pernas, forçando-o a entrar mais e mais...
A noite se passou, quente e suada, assim como o resto daquele ano. A grande pirâmide foi enfim concluída, a primeira de três de sua dinastia. Ao fim de seu reinado, Quéops já estava enlouquecido pelo poder absoluto que todo faraó possuía na época, e quis tomar para si o presente que dera anos antes à Adom: a preciosa Kaineferu. Como fora rejeitado por ela, foi ter uma conversa com o próprio sacerdote, que recusou-se abrir mão de sua deliciosa amante.
O faraó pensou em matá-lo, mas era muito devoto, e preferiu não o desafiar abertamente. Como seu próprio nome invocava, Adom era "aquele protegido pelos deuses". Então Quéops decidiu quem deveria morrer... Para tal tarefa designou duas irmãs gêmeas, Safiya e Tahirah, ambas puras e castas, alegando que Kaineferu era uma mera concubina e que merecia o fim pelas mãos de uma virgem, para evitar assim uma maldição. Como todos eram tementes aos vários deuses foi uma tarefa fácil convencê-las do assassinato. E assim foi feito...
Numa época em que os faraós e até as pessoas mais comuns eram mumificadas, os conhecimentos da anatomia humana eram muito avançados. Adom era versado nessas habilidades, que alegava ter aprendido em sonhos com o próprio Anupu, o guardião das necrópoles, que os egípcios acreditavam estar sempre presente nas mumificações.
Deitada morta em um catre de madeira na ibu-en-wab, "tenda da purificação", Kaineferu parecia triste por ter partido antes de seu amado. A tenda era ao ar livre, na margem oeste do Nilo, e durante a noite, movido por um inexplicável senso de perigo, o sacerdote foi ver como estava o cadáver, e quase morreu de raiva. Um homem, levado pela beleza de sua dançarina, estava violando o cadáver. Grotescamente amarrada na mesa de madeira, ela foi penetrada por trás pelo necrófago, que foi morto antes de gozar por um furioso Adom.
Em doloroso silêncio, o sacerdote armou-se de muito sangue frio e começou preparar sua amada Kaineferu para ser mumificada. Levou o corpo para a wabet, "casa da purificação", e então deu início aos procedimentos mortuários, dando-lhe um banho aromático.
Derramava lágrimas enquanto injetava no crânio dela uma mistura líquida de ervas. Isso literalmente derretia a massa cerebral. Com a ajuda de um ferro curvo, retirou pelas narinas o resto. Assoprou forte o ouvido para tirar os sucos cranianos que também escorreram pelo nariz. Enquanto fazia isso, lembrava das milhares de vezes que sussurrou ali juras de amor eterno... Pôs dois rolos de pano encharcados com óleo perfumado para tampar as narinas.
Pegou uma pedra cortante vinda da Etiópia e fez um corte profundo no abdome. Ela quase parecia que se ergueria da morte, e o mataria por violar daquela maneira seu corpo perfeito. Por meio desse corte, começou a retirar os órgãos macios. Os intestinos ele guardou num vaso com cabeça de falcão, em homenagem à Selket. O estômago foi colocado em um vaso com tampa em forma de chacal, e oferecido à deusa Neith, e o fígado ele guardou no "imset" - o vaso canópico com tampa em forma de cabeça humana, que era da deusa Ísis.
Por último retirou os pulmões e guardou no vaso com cabeça de babuíno, que indicava que era consagrado à deusa Nephtys. Lavou então o tórax com vinho de palmeira e secou. Com muito esforço emocional, retirou os olhos dela usando os dedões. Em vida, ela tinha sido apelidada também de Najla, "a que tem olhos maravilhosos", por um estrangeiro.
Encheu o ventre aberto com mirra moída, e também canela, outras plantas e essências. Depois salgou o corpo, e o cobriu com natrão, o verdadeiro segredo da mumificação. O bom senso e sua experiência diziam que devia esperar assim pelo menos setenta dias, mas não teve paciência. Quarenta dias após, lá estava Adom lavando cuidadosamente o corpo de sua amada...
De sua Kaineferu só restava a pele, ossos e carnes endurecidas pelo processo. Nem de longe lembrava a dançarina sensual, macia e hipnotizante de outrora. Tampou com cera seus ouvidos e passou esmalte nos olhos.
Começou a enfaixar sua múmia pelos dedos, um a um, individualmente, e só então depois os membros, a cabeça, quando deu um demorado beijo de despedida. Por fim esticou os braços dela ao longo do corpo com os antebraços cruzados no peito. Colocou uma série de amuletos entre as ataduras que envolviam sua amada, onde estavam escritas as fórmulas mágicas que lhe permitiriam renascer.
-Sim. - gritou, com ódio - Você voltará para mim numa época de luxúria e perdição. Voltará, em nome de Keket, a deusa das trevas, e Nekhbet, a deusa abutre, para uma dolorosa vingança! Me acordará das areias do Egito e juntos comandaremos uma nova era!
Dito isso colocou a máscara de lápis-lazúli em seu rosto angelical, e cerrou o sarcófago, enterrando Kaineferu para quase todo o sempre numa mastaba próxima à pirâmide de Quéops...
Sistinas, 2003 d.C.
Carl era o curador e egiptólogo do Museu Mundial de Sistinas. Ali, sob seus cuidados, estavam obras de arte vindas dos quatro cantos do mundo. Naquele momento, nada que estava exposto ali era mais importante que a fantástica coleção do Egito, que tinha passado por várias cidades antes de chegar às suas mãos. Era inexplicável a sensação de olhar tão de perto objetos esquecidos há quase cinco mil anos!!
Seu interesse era tamanho que já passava da meia-noite e ele não queria ir embora. Mas seus planos para a madrugada mudariam drasticamente quando viu sua namorada parada na porta do salão principal. Estava examinando um ankh genuíno quando ela chegou.
-E pensar que carregava um desses no pescoço quando adolescente... Agora que tenho um verdadeiro e egípcio nas mãos me sinto tão... idiota. - ele começou, sem graça, pois tinha esquecido que hoje comemorariam aniversário de namoro.
-É mesmo. Idiota também sou eu, de ficar em casa te esperando. Imaginei que estivesse aqui. São quase dois anos, sabia? - desabafou Verônica.
Carl secou o suor da testa. Seus olhos brilhavam de interesse pelos artefatos egípcios. Já Verônica na verdade, apesar de estar chateada com o esquecimento dele, estava ali para tudo. Menos para brigar. Deixou no chão uma mochila misteriosa, e o abraçou. Quando Carl a beijou, percebeu que estava nua por baixo do sobretudo que usava.
-Que isso?? Passou pelos guardas assim?
-Relaxa amor. Eu quero comemorar, sabia? Isso aqui dá uma bela fantasia sexual. Trepar num salão cheio de objetos egípcios!!! Pensa que eu não sabia que você estaria aqui babando hoje? Só falou disso nos últimos dias. Então, pensei numa surpresinha, e tem tudo a ver com o tema!
Carl sorriu, e se empolgou:
-Que legal, amor! Bom saber que se interessa pelo meu trabalho. Sabia que a palavra múmia não é egípcia? É do persa "mummiah", algo como "betume", uma antiga substância a que se atribuíam poderes curativos.
Verônica baixou a cabeça, e sorriu. Se não fosse apaixonada por ele...
-Acredita que os corpos eram retirados das tumbas, cortados em pedaços, embalados, e vendidos como medicamento? Acreditavam na época que uma múmia curava um monte de doenças! Mas o fato é: em egípcio antigo, um corpo preservado e envolvido em linho era chamado "wi". E a mumificação em si era chamada de "wet" - enfaixar.
-É mesmo? E "sexo", é uma palavra de qual língua? - provocou a mulher.
-É uma palavra universal, querida.
-E como ficaria em egípcio a expressão: "Quero chupar o seu pau"?
-Mmmmmmmm, deixe-me ver, não consigo me lembrar! - Carl riu maliciosamente.
-"Até você gozar na minha boca"? Que tal?
O curador não agüentou mais a provocação. Dane-se que os vigias passavam por ali. Virou sua namorada de costas, e ergueu o sobretudo dela, expondo o bumbum macio que ele tanto gostava. Ela apoiou-se em algo, curiosamente, num sarcófago. Empinou-se, ficando na ponta do salto alto que usava, e Carl a penetrou. Meteu com força, e tanto ele quanto Verônica gozaram logo. Apenas uma rapidinha, apesar da intensidade. Tão forte as estocadas, que a tampa do sarcófago entreabriu. Ambos queriam mais, e ela ainda tinha algumas surpresas guardadas para aquela noite...
-O que tem aí? - ele perguntou quando Verônica pegou a mochila.
-Você verá, sou uma mulher que pensa em tudo! - e então sacou um rolo de filme plástico.
-Para que serve isso, querida?
-Não quer saber como seria mumificar uma gostosa como eu?
Carl sorriu, sem acreditar no que via e ouvia. Em alguns minutos, loucura total, mas lá estava Verônica deitada no chão do salão, o corpo levemente arrepiado, exposto, só esperando que ele a envolvesse nas faixas plásticas do filme. Excitado e nervoso, Carl amarrou seus pulsos, deixando os braços dela à frente do corpo. De vez em quando aproveitava e dava uma boa chupada nos mamilos rijos dela.
-Você fica com um ar de vagabunda quando usa esse salto alto, sabia?
Verônica estava feliz, além de ensopada de tesão. Sentiu desconforto quando ele começou a embrulhar descendo, desde os ombros, os seios, a barriga, passou pelo quadril, as coxas e parou de enrolar somente nos tornozelos, deixando-a apertada, totalmente imobilizada e entregue. Sorriu, mas quando olhou para cima, se assustou.
Estavam bem em frente ao sarcófago, aberto, e a múmia parecia olhar para ela.
-Se essa porra se mexer, juro que tenho um treco, Carl!
O homem deu uma gargalhada, mas parou de repente. Parecia que a criatura estava ouvindo tudo. Olhou desconfiado para a máscara fúnebre por algum tempo, e então continuou a embrulhar sua namorada. Agora enfaixava a cabeça dela, que foi obrigada a fechar os olhos com a pressão do plástico.
-Deixe minha boca livre, amor. Além de claustrofobia, eu também tenho problemas respiratórios, você sabe...
-Deixarei sim, afinal, você vai ter que engolir algumas coisinhas... - respondeu Carl, se divertindo com a situação.
Ele enfaixou completamente até abaixo do queixo dela, e então com os dedos perfurou e rasgou o plástico na altura da boca. Sem muito o que poder fazer, ela abocanhou o dedo dele, e chupou demoradamente.
-Hmmm, que múmia safada!
De olhos fechados, Verônica sentiu quando seu homem passou o membro duro e já meio molhado em seus lábios. Não demorou muito, e sentia também que ele usava o pau para bater no seu rosto, e de vez em quando dava também alguns tapas. Ela só gemia e pedia mais, e mais... e mais! Era o auge do tesão.
Em minutos, ele gozou tanto que ela quase se engasgou com tudo que foi obrigada a engolir. A imobilização era cansativa, e ela estava toda suada e dolorida. Quando escutou Carl dizer que iria rasgar um buraco num lugar estratégico, sentiu um certo alívio. Estava cheia daquela estranha mistura de bondagismo com mumificação.
Sentiu que ele rasgava e cavava por entre as camadas de plástico entre suas coxas, enquanto lhe dava tapas no rosto. Já estava molhadinha, isso era inegável, mas queria logo se livrar daquela prisão. Estranhamente lembrou-se da múmia acima dela, e então escutou um barulho alto.
-Que foi isso, Carl?
-Nossa, a máscara dela caiu. Você não imagina como ela é FEIA!
Achou que ele disse aquilo querendo assustá-la. Claro, era isso. O medo desencadeia sensações incontroláveis, além de orgasmos mais poderosos. Mas então um segundo barulho ainda mais alto a deixou assustada de verdade.
-Carl...? CARL!!!
Uma gota com gosto de sangue pingou nos lábios dela, que tentou se mexer, em pânico. Não conseguia, de jeito nenhum! E Carl não respondia!
-SOCORROOOOOOO! - entrou em desespero, e então mijou-se toda de medo quando escutou algo inumano falando.
Verônica não teve chance de gritar outra vez. A múmia enterrou a maciça máscara bem no meio de sua testa, com tanta força que esmigalhou a cabeça. O apertado filme plástico manteve o sangue e cérebro no devido lugar, antes de começar a vazar...
Carl voltou à si momentos depois. Ouvia uma voz ao longe, gutural, lenta e cheia de raiva:
-Transaram "em mim"... trouxeram esse corpo... de volta. O tempo que Adom previu chegou.
Não acreditou no que estava presenciando: a múmia estava agachada, tirando com esforço os olhos de Verônica. - "Meus, você não os está usando agora." - ela resmungava. Ele viu que os dois vigilantes noturnos estavam mortos também. Provavelmente ouviram os gritos e vieram ajudar, mas...
-Vai me matar também?
A múmia voltou a cabeça, devagar. Tirou algumas bandagens do rosto, e colocou os olhos de Verônica no lugar de suas órbitas vazias, e falou:
-Não. Preciso de você. Tem que fazer o que quero.
-Fala minha língua? Estou entendendo tudo que me diz. - não queria demonstrar, mas estava morto de medo.
-Não, e nem você fala meu glorioso verbo. É o poder dos deuses que ouvimos. Você está falando sua língua, e eu a minha própria.
-Por que só eu estou vivo? - tinha medo da resposta, mas precisava perguntar.
-Preciso de você. Os olhos são dela. Quero mais, preciso. Não tenho meus canopos sagrados, preciso de tecido, matéria de Hórus. Esses não servem, são homens... Nem você serve!
Carl então entendeu. Ela precisava de órgãos femininos, pois perdera os seus... Pobre Verônica, morta, com uma poça de sangue no lugar da cabeça. Que fazer? Ela era uma múmia, algo antigo que retornava, como não admirá-la como uma... deusa?
-Arranje corpos para mim. - ela disse, e aquilo soôu como uma ordem, que ele não fez nem esforço para negar.
-Estou com problemas. Três pessoas morreram aqui, e só eu sobrevivi. Como explicarei isso à polícia?
-Não se preocupe. Eu te protejo se aceitar ser meu servo nesses dias estranhos.
-Eu tenho alguma escolha?
-Sim, uma opção mais imediata e definitiva. Se não aceitar a mão que lhe estendo, morrerá também. - respondeu a múmia.
-E como devo chamá-la? - temeu por sua vida.
-Sou Kaineferu, nascida no poderoso império egípcio, e agora ressuscitada como Osíris. Eu, que fui recusada por Anúbis, o deus-chacal dos mortos, agora devo assombrar o mundo dos vivos. Devo retornar às areias do Egito para erguer da morte meu amado Ini-Herit, aquele que trás de volta o que está distante. Essa foi a condição e esse é o sentido de meu despertar.
-Desculpe te desapontar, mas seu amado, seja lá quem ele for, não está mais nas areias do Egito. Assim como você, tudo o que se refere às pirâmides de Quéops está exposto aqui. Ou então chegará na semana que vem.
Kaineferu olhou raivosa para ele, que tratou de continuar falando:
-Me chamo Carl, e estou à seu dispor, Kaineferu. - disse, humildemente. Não estava louco, pois sabia exatamente o que estava fazendo. Dobrava-se diante de um poder antigo e desconhecido.
-Carl? - ela zombou, e o nome soôu estranho nos lábios podres - Quem no mundo se chamaria "Carl"? Vou batizá-lo de Hasani, "bonito", por sua aparência agradável, enquanto me for fiel.
-Acho que posso conviver com isso. Mas, e quanto aos meus problemas com a polícia? Como uma múmia pode me ajudar?
-Múmia? Porque me chama assim? O que é uma "múmia"? Acaso não lhe disse meu nome? Guarde-o bem, pois quem sabe o nome de um ser sempre tem poderes sobre a alma deste. Quanto à seus problemas, demonstrarei que comigo estará seguro. Vamos para sua habitação, não gosto desse lugar, e detesto meu sarcófago, que me cerrou por tantas noites...
Carl agradeceu por ser alta madrugada, senão, como sairia à rua acompanhado de uma múmia em decomposição? Meio incrédulo ainda, sentiu que sua vida nunca mais seria a mesma. Teve certeza disso quando deu a última olhada para a cabeça ensangüentada de Verônica.
A última gota de ceticismo dele sumiu quando chegaram em seu apartamento. Assim que tentou passar pelos portões, para guardar o carro na garagem, foi bloqueado. Desceu, e foi conversar com o vigia, repetiu por várias vezes seu nome, que estranhamente não constava na lista, nem a placa de seu veículo. E o porteiro, que Carl conhecia desde que chegou para morar ali, cinco anos atrás, não o reconhecia:
-Na verdade, senhor, está perdendo seu tempo. Nunca ouvi falar de você. Vá embora e não volte.
Quando entrou no carro, perdido e incrédulo, viu o sorriso nos lábios da múmia, que estava deitada numa posição esquisita no banco traseiro. "O que você fez, Kaineferu?"
-Ah, meu bom Hasani. Viu que seus problemas terminaram? Eu tenho o poder de apagar da história pessoas e nomes. Nem seus pais o reconheceriam, mesmo que você estivesse diante deles. Quem está comigo, Kaineferu, aquela que caminhou pelas areias do tempo, não sofre os efeitos do curso da história.
-Não acredito? Você me transformou num... fantasma?
-Não. Você ainda vive. Apenas foi apagado das linhas do tempo. A milícia de sua era, "polícia" como você os nomeia, não poderá nunca mais te descobrir. É impossível.
Carl usou nesse momento toda sua frieza para não cair em desespero. Imagine-se sendo apagado da mente de todos seus amigos, conhecidos e parentes? Agradeceu à Deus por não ter tido filhos com Verônica, pois não agüentaria. Mesmo assim, chorou.
-A maldição que o faraó desencadeou ao mandar me matar respinga agora em você, séculos depois. - ela disse, sombria, e então ficou em silêncio pelo resto daquela noite, com os braços cruzados por sobre os seios ressecados. Resignado, Carl só pôde dirigir até a casa de sua falecida namorada, da qual tinha a chave, e não foi reconhecido por lá também...
-Ohhh, goza logo, me chama de puta e me enche com sua porra!
Excitante? Sim, muito. Mas Carl não conseguia gozar. A mulher que estava de quatro na sua cama agora era uma prostituta que ele tinha contratado especialmente para poder extrair os órgãos, tão preciosos para a regeneração de Kaineferu.
-Vai meu macho. Você tá pagando, não quer gozar, não tá gostoso?
Antes que pudessem gozar, a múmia saiu das sombras do quarto, e a atacou. Surpresa, ela nem teve como se defender, e foi literalmente rasgada pelas mãos de Kaineferu.
Carl tentava disfarçar o próprio medo. A mulher foi jogada na cama, ao seu lado, e Kaineferu deitou-se sobre o corpo. Ouviu um barulho muito desagradável, enquanto o fígado, intestino e o estômago da puta começaram a sair, fundindo-se nas carnes da múmia. Ele não sabia se amava ou odiava aquela criatura, que gemia de olhos fechados. A coisa toda parecia até um ato sexual.
Em questão de minutos, a pele e carne da múmia voltaram à vida, e uma bonita e sensual dançarina se levantou da cama. As bandagens caíram, deixando o homem de boca aberta. Era linda, perfeita em todos os detalhes, e tinha uma tonalidade de pele que nunca tinha visto, além de não ter mancha alguma. Se já a respeitava como uma deusa, agora então é que cederia totalmente à seus encantos.
-Eu preciso de mais, Hasani.
-Quantas? - ele perguntou, sem vacilar. Nunca tinha visto uma mulher tão...
-Uma. Mas tem que ser pura, tenho pendências muito antigas com esse tipo de hipócrita.
Carl "Hasani" sorriu, e começou a pensar em como atrair uma virgem. Protegido pelo poder secular da múmia, não temia a polícia nem nada. Sabia que nunca mais seria preso, pois simplesmente tinha deixado de existir. Não tinha nome, nem residência, e nem passado. Seu pior lado aflorou então. Não quis mais se conformar em apenas servir à Kaineferu, queria aquela mulher apenas para si.
"Dane-se Adom. Agora entendo o motivo do faraó ter enlouquecido de desejo. Se depender de mim, esse sacerdote nunca se levantará da morte!"
Alheia aos pensamentos traidores de seu servo, Kaineferu andava nua pelo quarto, pensando dia e noite em como alcançar seu amado e senhor. Teve um estranho pressentimento, até pelo fato de nunca tê-lo encontrado no mundo espiritual. Sabia também que o Egito dos dias de hoje não era mais o poderoso império de outrora, e que os arqueólogos já tinham retirado tudo das proximidades das pirâmides. Uma prova era ela mesma, que estava ali, no museu de Sistinas.
-O sarcófago de meu amado chegará semana que vem? Eu devo despertá-lo, e ele renascerá como Khaldun, "o imortal", e voltaremos à nossa terra.
Carl não respondeu. Teve medo só de pensar que poderia despertar a múmia de um poderoso sacerdote egípcio. Quais males ele traria consigo?
-Vamos arranjar sua virgem nesse meio-tempo, Kaineferu. - desconversou.
Camile tinha dezesseis, quase dezessete anos. Apesar da vontade, nunca pôde entrar para o convento, pois sonhava com a vida religiosa. Infelizmente, sua família não partilhava desse mesmo sonho, por isso ela tinha ataques de rebeldia. Percebeu que um cara estranho, que nunca tinha visto na vizinhança antes, estava de olho nela. Quem seria ele?
Carl, quando sentiu que a menina facilitava as coisas, se ofereceu para pagar um sorvete, e com alguns poucos minutos ganhou a confiança dela. Kaineferu acompanhava de longe, pois queria os pulmões, os únicos órgãos que ainda lhe faltavam. Sem eles, nem mesmo sua poderosa beleza disfarçava o aspecto esquisito em que se encontrava.
Ao entardecer, a menina entrava na casa da falecida Verônica, onde Carl morava agora. Sentou-se, provocando, com as pernas cruzadas. O uniforme da escola trazia as mais loucas fantasias à mente dele:
-Você é uma garota muito safada para ser freira.
-Não quero mais ser freira. É como dizem por aí, as boas garotas vão para o céu... e eu quero poder ir à qualquer lugar! - respondeu Camile, molhando os lábios.
-Ah, é mesmo? - ele ameaçou pôr o dedo médio na boquinha juvenil dela, que estranhamente não recusou. Ficou lambendo, chupando e olhando de maneira sapeca.
-Sente-se aqui, safadinha.
Quando Camile ajeitou-se no colo dele, Carl a beijou e apertou os seios duros por cima da blusinha. Ela suspirou, de olhos fechados. Kaineferu, nas sombras, acompanhava tudo, e viu quando ele a fez virar-se. Então começou a dar palmadas fortes no bumbum da menina, como se fosse o pai repressor dela.
A princípio, a menina não gostou da brincadeira, mas depois de ficar com a bunda vermelha, pedia por mais tapas, que estalavam bem alto. De vez em quando ela soltava um risinho nervoso, até que ele alcançou a calcinha.
-Calma tio. Ainda sou virgem.
-Posso ver se é mesmo? - disse, fazendo ela se levantar.
Quieta, ficou de pé, enquanto ele descia a calcinha. Pôs o dedo dentro dela, e mexeu devagar. Estava muito molhada, e quente como um inferninho.
-Sim, você ainda é virgem, que gracinha. - e do jeito que ele falou, em voz alta e clara, pareceu ser uma senha.
Antes que Camile fizesse qualquer coisa, Kaineferu enfiou um saco plástico na cabeça dela, sufocando-a. A menina gritava e tentava em vão se soltar, em pânico.
-Penetre-a, Hasani. Sei o quanto quer isso. Rápido! - ordenou a múmia.
Carl não deixou por menos, tirou apressadamente o pau para fora, e penetrou fundo a menina, que chorava com os olhos arregalados. Ele sentia, além da dificuldade natural de penetrar uma virgem, as poderosas contrações da vagina dela causadas pela falta de ar. Era tão gostoso sentir os apertões, que acabou gozando logo. Camile também teve um orgasmo, o primeiro e último, antes de morrer asfixiada.
Kaineferu, sem ao menos tirar o saco plástico da cabeça dela, abriu-lhe o peito, e novamente deitou-se por cima do cadáver. Os pulmões de Camile começaram a descolar, grotescamente.
-Como é transar com uma mulher morta, Hasani? Ou quase morta, como essa aqui...?
Carl não entendeu a dúvida da múmia, mas quando viu que ela mexia sensualmente o quadril, rebolando em cima do corpo da menina, apenas resmungou:
-Quero saber como é foder uma renascida. - e a penetrou, sentindo enfim como Kaineferu era quente e gostosa.
-Goza bastante, me faça sentir viva novamente, meu servo! Está tendo uma honra enorme, de trepar comigo. - nesse momento, o corpo de Camile ressecou, e a regeneração da múmia foi completada. - Em meu tempo, homens matavam para ter esse privilégio.
Carl não estava ouvindo. Pelo contrário, estava apertando e afastando as nádegas dela, e se deliciando com essa visão, enquanto a penetrava. Estava fodendo uma divindade! Segurava na cintura dela, e a puxava contra si. Com isso, enterrava-se mais e mais nas carnes úmidas de Kaineferu.
-Mesmo agora, séculos depois da era de Rá e dos faraós, homens ainda matam para ter o prazer de deitar-se comigo. - ela gemeu, e rebolava mais, e mais.
-Vou gozaaaaaaaaaaar!
Os dois se acabaram juntos. Como testemunha daquela trepada inusitada, só o cadáver seco de Camile, a menina que gozou nos gélidos braços da morte...
O resto da exposição do antigo Egito chegou enfim ao Museu. Carl e a renascida tiveram que esperar pela madrugada, quando invadiram o lugar. Como trabalhou durante anos ali, sabia exatamente onde estavam os furos na segurança. Mas os dois nem imaginavam que uma desagradável surpresa os aguardava...
-Será que meu amado está aqui? Tenho medo de não encontrá-lo, Hasani.
Carl torcia para que não tivessem encontrado o sarcófago de Adom. Isso significaria que ela seria dele pelo resto da vida, e isso era exatamente o que queria. Suas preces foram mesmo atendidas, pois no salão principal, decorado totalmente com motivos egípcios, estava apenas um sarcófago: o que pertencera à Quéops, o faraó.
-Maldito seja! Veja meu servo, esse é a origem de todo o mal. Pela loucura dele eu fui morta e não pude viver meu grande amor. - apontou raivosa Kaineferu.
-Tire suas mãos profanas daí, renascida.
Só nesse momento que Carl e sua múmia perceberam que não estavam sozinhos. Duas mulheres, vestidas em branco e com olhos vazios, ameaçadores e sem pupilas estavam na entrada do salão.
-Malditas! Vamos Hasani, não fique aí parado! Essas são inimigas de sua mestra, portanto, suas inimigas também!
Carl estava paralisado. Afinal, quem eram aquelas duas? "Safiya e Tahirah, as executoras. As duas virgens que a mando de Khufu me mataram!" - gritou Kaineferu, esperando que seu servo reagisse.
-Acabou Kaineferu. Nosso tempo passou. Você é última de nossa estirpe que desperta. Nós duas renascemos por sua causa, pois o faraó assim nos ordenou ainda em vida. Aqui morrerá para sempre dessa vez, dançarina, pois seu sacerdote não mais irá interferir. - disse calmamente Safiya, a mais alta das inimigas.
-Onde está meu amado, Adom, o poderoso sacerdote?
-Quéops lhe negou a mumificação. Seu corpo definhou, apodreceu e virou pó há milênios.
Kaineferu não se conformou. Gritou tão alto que tirou Carl de sua letargia. Ele tentou atacar Tahirah, mas a mulher o jogou longe. Eram muito poderosas! Sua mestra então pulou, caindo por cima de Safiya, lutando com todas suas forças. A maldição do faraó era mais poderosa nessas duas, mas a dançarina estava obcecada e com raiva.
Apesar de renascidas, e seus corpos serem mágicos, as três ainda eram em essência muito humanas. A cada golpe as mulheres morriam um pouco. Carl assistia impotente, procurando por algo com que atacar. Não permitiria que sua deusa morresse, agora que sabia que Adom nunca voltaria do mundo dos mortos.
Kaineferu enfiou os dedos nos olhos de Safiya, e a mataria, se Tahirah não fosse mais rápida que o vento.
-Deixem Kaineferu em paz, vivendo nessa era, comigo. Não interfiram!! - gritou o homem, desesperado, pois as duas mulheres cercaram sua mestra. Tahirah virou-se sombriamente para ele, e falou:
-Creio que essa decisão não esteja mais em nossas mãos, estrangeiro.
Carl não entendeu, mas viu quando algo negro, alto, forte e definitivamente maligno entrou no salão. Tinha o corpo disforme, monstruoso, e a cabeça era de um chacal. Seus olhos vermelhos não eram desse mundo, e nem aquilo que ele trazia nas mãos. Um punhal.
Kaineferu foi imobilizada por Safiya e Tahirah, segura pelos pulsos. O deus-chacal então se aproximou e abriu-lhe o ventre. Todos os tecidos que a múmia roubara caíram para o chão, como se nunca tivessem estado ali dentro.
-Hasani, me ajude! - gritou, começando a se decompor novamente, sem saber que eram suas últimas palavras.
Carl pulou, sem saber de onde tirou força e coragem, nos ombros do chacal. Levou um potente soco e caiu, tonto, aos pés do sarcófago do faraó. Assistiu dessa maneira a segunda e definitiva morte de Kaineferu, a linda dançarina que um dia ousou desafiar o senhor do Egito. O corpo dela ainda era uma nuvem de poeira suspensa no ar, quando as renascidas Tahirah e Safiya pararam em frente ao homem caído, mas dirigindo a palavra ao sarcófago:
-Nossa tarefa foi cumprida, ó todo-poderoso faraó, senhor do Egito e dono de nossos corpos. Voltaremos agora ao pó, uma vez que Anúbis nos chama para o descanso eterno.
A figura negra então deu um estranho grito, abrindo a boca enorme de chacal, e foi como se os portões do inferno se abrissem. Atacou as renascidas Safiya e Tahirah com o punhal, e as duas foram acometidas por dores horríveis. Em segundos gritaram, gemeram, e voltaram a ser meros corpos envoltos em linho, virando pó nesse momento, da mesma maneira que a condenada Kaineferu.
Carl então se encolheu, ainda tonto pelo golpe da fera, que agora lhe dava as costas, indo de volta para as areias do tempo. O homem olhou de relance para cima nesse último momento, mas viu apenas a máscara de lápis-lazúli que representava as severas feições do faraó Quéops.
Ele parecia sorrir...
"Kaineferu" foi publicado originalmente em 24.01.03.
"Onde o mal é palpável, a luxúria é a ordem vigente, e todos os nossos terrores e desejos noturnos são reais."
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