O mundo está cheio de Reis e Rainhas
Que cegam seus olhos e roubam seus sonhos
É o céu e o inferno, é sim
Eles lhe dirão que o preto é realmente branco
Que a lua é apenas o sol à noite

Heaven and Hell - Black Sabbath

O vendedor era bonito, simpático e de sorriso fácil. Tinha exatas doze horas de vida, à partir daquele encontro, mas não sabia disso. Afinal, era apenas uma venda de carro esportivo.

O terror e a intolerância racial da Ku Klux Klan ataca em Sistinas. - Sistinas, contos de vampiros eróticos

Sentado em sua mesa com aquela loura à sua frente, assinando um cheque de valor absurdo, ele sorria mais ainda. Tinha atingido novamente a meta de vendas da concessionária, o necessário para deixá-lo com o status de único negro a revender aquela marca famosa em Sistinas. O mercado ainda era muito preconceituoso, mas ele seguia firme, mês à mês. E no topo; não podia ser diferente. Com uma certa dose de arrogância, seu chefe dizia que só o manteria na loja se batesse todos os outros vendedores, mensalmente.

"Brancos bundões, ninguém vende como eu!" - ele se pegou pensando, olhando dentro do decote da cliente que estava debruçada na mesa. Seios grandes, experientes, balzaquianos, e provavelmente turbinados.

"Tyler", ela tinha assinado, e ele sentiu um calafrio assim que leu aquela assinatura. Não sabia o por que, mas...

-Eu gostaria de almoçar com você, senhor...? - ela se fez de desentendida, mesmo sabendo o nome dele.

-Robert. - ele respondeu, tirando enfim os olhos do cheque - Aceito seu convite, vou apenas preparar a papelada da negociação e poderemos sair.

Ela deu um suspiro entediado, como se o estivesse incluindo no pacote da compra do carro, e exigia pressa. Robert gostou daquilo, parecia que ia papar uma loura ricaça pra comemorar a meta atingida.

"Estranho, na ficha consta que ela é casada. Já desembolsou uma pequena fortuna aqui, e ainda quer almoçar comigo?"

Naquela tarde, ele era simplesmente o dono do mundo. No restaurante, foi o centro das atenções por estar na companhia daquela mulher de decote generoso.

-Vou ser direta. Quero te encontrar mais tarde mas, como você já sabe, sou casada. Quero discrição. Posso contar com você?

Robert, que sempre tomava vinho no almoço, achando que assim prolongaria sua vida e saúde, engasgou-se:

-Sim, quero dizer, claro... mas, mas... Onde?

Ela sorriu discretamente, mas um sorriso tão cínico, como se tivesse sido a coisa mais fácil do mundo, e ele sentiu-se um prostituto. Ela tirou da bolsa um cartão perfumado com um endereço rabiscado apressadamente. Tinha tudo preparado, ele pensou. Premeditado.

A despedida momentânea foi fria. Ele quis beijá-la, mesmo que no rosto, e ela se esquivou. Achou que era por causa do casamento, mas não, o comentário a seguir foi cruel:

-Cuidado, em outros tempos um negro seria chicoteado e morto à pauladas simplesmente por olhar pro meu decote dessa maneira.

Robert queimou por dentro, pois ela não esperou resposta e desceu em direção ao carro. Tinha um motorista particular esperando, um louro bem forte, e ele teve certeza que os dois eram amantes. Mais do que nunca quis ir ao encontro daquela vagabunda mais tarde.

Quando o carro se afastou ele mentalmente anotou a chapa, um hábito de vendedor de automóveis. Era bom nisso, assim como também era com números telefônicos. Mesmo assim, não percebeu as iniciais impressas na placa...


Naquela noite, o Devil´s Whorehouse estava fechado ao público. Mas a casa noturna de Sammael tinha uma estranha movimentação na porta dos fundos. Roupas e capuzes brancos de fantasmas malditos de um passado não totalmente esquecido, que carregavam ódio e intolerância racial.

A Klan.

Era por isso que o Devil´s estava fechado. Lá dentro, em algum lugar de uma vasta masmorra iluminada por velas, Robert estava amarrado à um tronco. Estava nu e raivoso, preso como um animal. O encontro com sua cliente loura tinha sido uma armadilha, e agora ali estava ele...

As iniciais da placa do carro? "KKK", mas ele não tinha entendido. Não até sentir um gosto amargo na sua bebida e o lenço de clorofórmio que apareceu do nada cortando sua respiração. Nunca soube onde estavam escondidos os três branquelos que o imobilizaram.

Agora eram em média trinta encapuzados que se acotovelavam dentro daquela cela. Cada um deles se aproximou, com um alicate todo especial para esse fim, e arrancou uma de suas unhas. Quando seus pés e mãos já estavam em carne viva e sangue, começaram a arrancar outros pedaços de seu corpo.

Robert já tinha enlouquecido de tanto gritar. Não entendia. Porquê? Simplesmente por ser negro?

Um capuz se aproximou, falando numa espécie de "língua do K" que o prisioneiro não entendia, e furou seu olho com uma faca, friamente, num golpe muito rápido. Mesmo antes disso Robert já não enxergava nada mesmo. Estava cego de dor, e já preferia morrer do que viver deformado. Malditos fossem, mas sua mente não coordenava mais nada.

-Kassandra. - disse um capuz de cor mais escura que os outros.

Apesar do capuz, dava mesmo pra perceber que era uma mulher. A graça dos movimentos só se comparava à frieza e crueldade. Ela trazia nas mãos uma corda grossa presa num bastão, que entregou ao Grande Dragão da cerimônia. Postou-se em frente ao prisioneiro, e o grupo restante fez um círculo ao redor do tronco.

O Grande Dragão passou a corda em torno do pescoço de Robert e a prendeu no bastão. Frouxa à princípio, a corda começou a apertar conforme o encapuzado girava vigorosamente o bastão. Em segundos os olhos do prisioneiro esbugalharam. Não conseguia respirar e tentava freneticamente escapar do estrangulamento. Sua tráqueia foi sendo esmagada junto ao tronco, e nesse momento sua língua começou a pender.

Cassandra, a serva torturadora de Sammael, observava o trabalho do Grande Dragão com interesse. O membro de Robert nesse momento enrijeceu, ficando tão duro quanto jamais esteve, uma mistura de urina com esperma saía dele, e sua língua já estava quase toda fora da boca. A vampira ficou excitada com o sofrimento e a ereção do negro, que então morreu.

Exatas doze horas após conhecer a loura Sra. Tyler, que foi a primeira a tirar o capuz, revelando-se ao lado de Cassandra: "Ele teve o merecido castigo."

Sammael e suas três servas - Cassandra (ainda muito excitada com o que tinha presenciado), Angélique e Claire - faziam as honras do Devil´s, emprestando o lugar para aquela cerimônia edificante da Ku Klux Klan.

-Uma pena termos que fazer nossa cerimônia fechada aqui no seu clube.  - disse o Grande Dragão, tirando o capuz. Era um banqueiro grisalho, forte, de olhar cruel - Gostava mais da época das fogueiras! Hoje nos escondemos, como se fosse vergonhoso querer um mundo melhor, livre desses negros...

-E judeus. - completou Sra. Tyler.

Ninguém mais usava capuz nesse momento, e a conversa foi longe ainda. O banqueiro grisalho pelo jeito tinha raízes alemãs também, pois citou a bela Ursula Krauss, que no auge dos seus vinte anos se deitava com judeus tentando assim escapar de Ravensbruck, um campo de deportados dos nazistas.

Perguntada por que se entregava à seres inferiores, ela respondeu: "Melhor seis meses num bordel do que seis meses num campo de concentração."

Um dos membros da Klan ali presente era investigador de polícia. Ele se encarregou de sumir com o corpo irreconhecível de Robert.

-Bem, senhor Sammael, foi um prazer partilharmos de sua presença. Disse que nos cederia seu clube para nossos encontros, mas por um preço. Imagino que tenha um inimigo, algo do tipo. O que a Klan pode fazer por você? - perguntou o banqueiro, que em sua doce ignorância não sabia que "Sammael" era o nome de um demônio judaico.

O vampiro lhe estendeu uma foto, não muito nítida, tirada numa noite qualquer. O Grande Dragão riu, passando a foto para Sra. Tyler.

-É sempre um prazer perseguir e punir um negro.

As três servas de Sammael, que não entendiam a atitude do mestre, reconheceram o homem da foto: Spot, o segurança da casa Princess of the Night.

-Um acordo de cavalheiros. Não vou lhe perguntar o que ele fez, considere-o morto.

Apertaram as mãos, o Grande Dragão perturbou-se com o tamanho das unhas negras do vampiro. A verdade é que Sammael já não via a hora de se livrar daqueles loucos encapuzados.

-Existem pouquíssimos humanos que me assustam. São os que carregam a marca do fanatismo - confidenciou à Claire, logo após a Klan sair do recinto. Nessas horas Sammael deixava transparecer que já tinha sofrido muito em seus séculos de vida.


Spot era uma máquina sexual. O sangue de vampiro que bombeava seu coração lhe dava muita força, e seus sentidos eram muito mais aguçados do que um humano. Isso era útil pra sentir o cheiro de metal e desarmar encrenqueiros na porta do Princess of the Night.

Mas também era útil pra sentir cheiro de calcinha. Sabia só pelo aroma quando uma mulher estava excitada em sua presença. E por ser negro, alto, forte e ocupar o cargo de chefe de segurança da casa noturna mais badalada de Sistinas, sua cama era muito requisitada. Já tinha comido desde virgens de quatorze, quinze anos, passando por filhas drogadas de políticos, até damas entediadas da alta sociedade.

Spot já tinha gozado na boca de uma famosíssima âncora de TV, meia-hora antes dela entrar no ar com seu jornal e anunciar, lambendo os lábios de uma maneira obscena, que a taxa dos juros aumentariam...

De todas, apenas uma mulher não se submetia aos prazeres de sua cama: Valerie, sua mestra. "Já teve medo e ao mesmo tempo adoração por alguém antes? Pois misture isso com desejo sexual e saberá do que falo."

Sabia que a vampira, vez ou outra, levava humanos à loucura entre seus lençóis. Por que nunca ele? Ela sabia do apetite sexual de seu servo, mesmo assim nunca tinha ao menos insinuado nada.

Pensava nisso enquanto fodia com raiva a terceira prostituta da noite. Uma delas já dormia, toda melada, na cama pequena e encardida. A segunda estava sentada na mesma cama, olhos surpresos de ver tanta virilidade em um único homem. Aquela trepada já durava mais de cinco horas ininterruptas...

-Você tem o maior saco que já vi num cara, dá o maior tesão de lamber. Excita ver tudo isso batendo nas coxas da minha amiga. Quanta porra cabe aí?

A resposta foi um puxão nos cabelos dela. Foi forçada a chupar o pau grosso todo encharcado das gozadas da outra mulher. Só metade entrava em sua boca. A outra gemia e tentava descer da cama, mas a mão grande de Spot a segurava pela cintura fina.

Deitou a chupadora por cima da outra prostituta, pediu que elas esfregassem seus grelos uma na outra, e ainda fodeu as duas mulheres alternadamente por quase meia-hora. Mal tinha começado a suar quando as mulheres pediram arrego. Não quiseram mais. "Hora de pagar a conta, garanhão..."

-Eu digo a hora de parar. - esbravejou Spot, pegando uma nota alta. Limpou os dedos e o pau com ela, e então a amassou. Olhou para as duas putas, como que escolhendo. Elas sentiram medo. Ele ignorou e imobilizou a chupadora segurando-a pelo pescoço.

-Abra sua boca. - disse calmamente, mas com firmeza. Ela obedeceu e ele enfiou o dinheiro amassado e esporrado lá dentro.

Saiu de lá depressa, até por que já ia anoitecendo, e sua mestra acordaria em breve. Não costumava mostrar essa agressividade na presença dela. Na verdade, na presença de Valerie, ele se comportava como um cordeiro escravizado. Queria entender o por que disso, mas não conseguia. Não, não era proposital.

Quando girou a chave na porta de seu carro, a loura gostosa parou ao seu lado. Spot estava tão raivoso que não tinha percebido ela se aproximar. Aquele olhar de interesse macabro, e então o cheiro. Ela não estava excitada, era...

Um lenço ensopado de clorofórmio. E aí dois, talvez três, homens o imobilizaram.

-Shhh. - a loura disse, com o dedo indicador por sobre os lábios. Spot desmaiou, sufocado pelo lenço.


-Ele deu trabalho, muito trabalho. É muito forte, quase pude jurar que ele não é humano...

Sammael olhou para o Ciclope da Klan parado à sua frente. Sim, eles se davam esses nomes estranhos, como Titãs e tal. Questões hierárquicas. O Grande Dragão no momento estava acendendo uma fogueira...

-Mas se não fosse humano, o que ele seria, não é mesmo?

-Ele é só um negro que cruzou meu caminho. - respondeu Sammael, terminando a conversa. - Quero ficar sozinho com ele.

O Ciclope recolocou seu capuz e saiu, deixando o vampiro em sua masmorra, com o negro acorrentado ao poste de tortura.

Sammael deu um tapa fortíssimo em Spot, que certamente arrancaria a cabeça de um humano normal, e suas unhas rasgaram a pele do rosto dele. O segurança acordou, ainda atordoado. Antes que entendesse o que acontecia, teve seu rosto ensangüentado lambido pela língua fétida do vampiro.

-Ah, o doce sangue daquela vagabunda. Séculos se passaram, e posso sentir esse gosto novamente. Me diga, como ela está?

Spot estava desorientado, e não respondeu nada.

-Você não é mais dela, teu rabo agora é meu. Vai morrer, como um recado, um aviso. Depois vou acabar com ela, mas aos poucos, devagar. Vou minar sua reputação, enfraquecer suas defesas, atormentar sua pós-vida...

-Que se foda.

O vampiro foi tão rápido e feroz que o segurança nem tinha fechado a boca quando foi mordido. O barulho era repugnante, pois Sammael bebia seu pescoço com desprezo. Encharcou-se e o soltou, cambaleando. Estava eufórico, furioso, e de certa forma, excitado por sentir nos lábios o gosto de Valerie.

-Puta maldita! O sangue dela ainda é delicioso, não envelheceu! Quero estuprar essa vaca, mordê-la, arrancar seus seios fora com meus dentes, puxar seu útero pra fora com as mãos enfiadas naquela...

-Que você quer com a Valerie? - interrompeu Spot.

-Ah, esse é o nome que ela usa hoje em dia, não? Covarde, sempre fugindo, se escondendo, mas eu vou desmoronar o castelo de cartas dela. - dizendo isso, Sammael cuspiu sangue no rosto do negro, e saiu. Dois Ciclopes entraram naquela masmorra minutos depois e espancaram Spot com vontade. Bateram até que ele apagasse.

Longe dali, em seus aposentos dentro do Princess of the Night, Valerie procurava qual vestido de noite usar, para fazer companhia ao prefeito e duas famosas atrizes que estavam com ele. Pressentiu que algo estava errado. Quase podia sentir seu servo apanhando e ouvir as gargalhadas de um antigo e adormecido inimigo. Era mais uma sensação do que uma certeza, mesmo assim ela deixou o tecido de gala escorregar de sua pele pálida, vestiu uma roupa de assalto noturno e saiu.


Spot acordou acorrentado à algo, encharcado de gasolina e o cheiro fortíssimo fez com que despertasse de vez, abrindo os olhos. O círculo estava todo lá, ao seu redor. Capuzes brancos que odiavam.

O negro fez uma rápida checagem do território; trinta encapuzados. Estavam numa colina, no meio do mato, afastados das luzes da cidade. Os capuzes brancos carregavam tochas, que iluminavam a noite, mas quem passasse pela auto-estrada, longe lá embaixo, não veria muita coisa. Olhou para cima, e percebeu que estava amarrado à uma cruz imensa, quase da altura da copa das árvores ao redor.

Um capuz chegou perto quando ele acordou. Sabia que era Sammael.

-Sente-se melhor negro? Sabe, o Grande Dragão queria atear fogo em você enquanto dormia, e apostou que as chamas te acordariam assim que sua pele ardesse. Mas agora, já que está desperto...

Spot viu o Grande Dragão da Klan (como ele parecia assustador agora!) acender um fósforo e jogá-lo em sua direção.

-Não! Nã...

-Implore por sua vida, negro! - gritou alguém que devia ser a Sra. Tyler, pela excitação.

Spot simplesmente não teve tempo de implorar, o fogo pegou como uma explosão, e ele só pode gritar, bem alto, enquanto sua carne e músculos queimavam junto com a madeira da cruz. Seu sangue ferveu - e não, isso não foi força de expressão!


O grito de Spot cortou gemidos.

Um pouco afastado dali, no alto do convento de freiras de Sistinas, ficava o quarto da Madre. Uma menina estava de quatro na cama, algemada. Suava e gemia, faminta por apanhar mais, com as costas avermelhadas. Quando queria falar, a mordaça deixava sair apenas grunhidos. Grunhidos excitados.

A Madre chegou à janela, que dava uma panorâmica da colina, e viu a grande cruz da Klan queimando. Mesmo estando longe, entendeu o significado do grito.

-Santo Deus, estão queimando alguém. Que o Senhor tenha piedade desses fanáticos. - ela fez o sinal da cruz, e então molhou cuidadosamente outra toalha, pronta para dar outra surra na menina, cujos olhos brilhavam de prazer a cada pancada do grosseiro pano úmido.

Em outro lugar - mesmo sem ouví-lo - o grito de Spot deu à Valerie a certeza que algo estava terrivelmente errado. A vampira agora precisava achar seu servo, levada pelo sangue!


O Grande Dragão e seus Ciclopes estavam emocionados. Era o grande momento da vida deles. A época das grandes fogueiras estava de volta! Deram tiros para o alto - e nesse momento Cassandra acreditou naquela estória de que o som "Ku Klux Klan" era o de um rifle sendo armado - pularam e dançaram como crianças ao redor do condenado.

Spot estava morto, tinha virado um monte de carne disforme e queimada. Ele gritou muito, alimentando meses de fantasias daqueles encapuzados de branco, que agora olhavam orgulhosos para as fortes correntes fumegantes que prendiam os restos do negro à cruz.

-Vamos embora. Essa fogueira tão alta pode ter atraído atenção demais, mesmo sendo plena madrugada. - na verdade Sammael estava perturbado, lembrando de outros tempos, de outras fogueiras, e de uma outra espécie de fanatismo. Um fanatismo religioso que fazia esses loucos encapuzados de agora parecerem meras crianças arteiras.

Valerie chegara tarde demais, mas antes mesmo do que a polícia e bombeiros. Tirou os restos carbonizados de Spot e o enterrou em algum recanto perdido da mata fechada de Sistinas. Enquanto cavava a terra úmida de orvalho com suas garras nuas, ela remontava a cena em sua mente. Fora obra da Klan, tinha certeza disso, assim como tinha ciência da proximidade de seu inimigo que agora, depois de tanto tempo, voltava à caçá-la. Qual seria o próximo passo dele?

Decidiu que não esperaria o próximo passo do vampiro. Agiria primeiro. Quando se refere à Sammael, o melhor mesmo é bater primeiro, se possível matar, e ainda assim sair correndo depois. E o maldito não morria, pelo que a história mostrava.

Não teve tempo de voltar ao Princess, o Sol já ameaçava no horizonte, então ela se recolheu numa caverna, ouvindo os sons de milhares de morcegos que também faziam dali sua morada. Um humano morreria de susto se visse claramente o que Valerie enxergava mesmo no escuro. Sentiu-se confortável assim, e adormeceu pensando em vingança.


O lugar cheirava à charuto e galinha morta. E o negro - um bokor, feiticeiro vodu - olhava surpreso por ver uma mulher branca tão bonita ali, em seus aposentos.

"Ele usa chapéu de feltro e smoking, apesar de deixar à mostra o peito nu por baixo dele. Segura uma ameaçadora bengala na mão direita, e tem olhos vermelhos encravados na face esquelética. É tão arrogante por estar em seus domínios, que tenho vontade de rasgar sua garganta com meus caninos, só pra sentir o sangue caudaloso escorrer, pois não beberia dele com esse cheiro de pena de galinha... Mas, não. Ele me será muito, muito útil." - pensava Valerie.

-Um negro foi queimado vivo por uma elite branca duas noites atrás, você lembra da Klan e seus terrores, não?

Aquilo bafejou e pareceu desdenhar do que ouvia. Atrás dele, a vampira viu o símbolo com uma cruz negra sobre um caixão, a marca de Barão Samedi, o senhor dos cemitérios.

-A KKK é uma piada. Os rappers riem deles em suas músicas, em seus clipes de MTV.

-Consulte seus loas, seus "zanset yo", ou algum loa Ghede. Verá que falo a verdade.

Antes que ele retrucasse - surpreso com o palavreado da dona branca, pois nem mesmo alguns negros conheciam o termo "ancestrais" no dialeto original - ela foi ainda mais longe:

-Eu acho que você já sabe que é verdade.

-Sim, digamos que sim. E por que uma branquela vem me contar isso?

-Porque temos inimigos em comum.

O bokor pensou um pouco, sem disfarçar a desconfiança nem o desconforto que a presença dela causava. Enfim falou, cheio de autoridade:

-Agora sou eu quem vai te contar uma coisa. Outro negro foi massacrado dias atrás, e ninguém tomou providências, mas nós tomamos. Nomeamos os brancos, sabemos quem são. Mesmo em seus capuzes, sabemos quem são os descuidados que andam em seus carros ricos com placas óbvias. E esses, quando os pegarmos, vão cantar os nomes dos outros.

Valerie não sabia da morte do outro negro, e essa ignorância custou pontos com o bokor. Ele estava tão cheio de si, que soprou fumaça de charuto no rosto dela, e pôs-se a andar com seu umbigo nu pela sala. A vampira só agradecia por aquele homem não estar possuído como outros sacerdotes que ela já tinha visto em outros tempos. O loa Barão Samedi geralmente era obsceno, ela provavelmente ouviria outra vez alguma descrição infame de como um pinto negro fodia uma vagina branca.

O bokor mirou Valerie com seus olhos em brasa, e perguntou, em tom ameaçador:

-O que vem fazer uma branquela aqui, em meus domínios, me contar algo que já sei? - ele insinuava que ela estar ali, ter descoberto onde as cobras negras se escondiam em Sistinas, era um sacrilégio. Dois negros tão fortes quanto Spot apareceram por trás dela.

-Calma meninos, eu não quero machucar vocês. - ela disse, tranqüila.

Ao ouvir isso, da maneira como foi dita, o bokor recuou, lembrando-se do mito da vampira do Haiti.

-A Loogaroo... Você é uma pálida! - e então os outros dois homens também se afastaram dela.

-Agora podemos conversar? - perguntou Valerie séria, mas sorrindo por dentro, imaginando como seria deixar sua pele todas as noites, transformando-se em "bola de luz", para voar pelos céus sugando sangue de criancinhas...


Continua em Loco Miroir - parte 2


A Ku Klux Klan, fundada em Nashville-1866, tirou seu nome da palavra grega kuklos, cujo significado é círculo. Ainda hoje, para ser membro da KKK é preciso: não ser Judeu, ser branco, defender a pátria até as últimas conseqüências e ser um bom cristão protestante. Esses fanáticos esquecem que na bíblia, segundo Mateus, na própria família do Cristo haviam pessoas de origem negra, então o racismo é injustificável dentro da ótica cristã protestante.

"Kuklos" foi publicado originalmente em 11.06.04.

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