A primeira me disse: 'Não tenha medo... Eu lhe darei a imortalidade, e graça para sua alma'. A segunda tinha olhos de ouro. Ela me deu minhas asas.
E a terceira deu toda a sabedoria que um anjo poderia me dar.

Samarithan - Candlemass

A mulher acorda, assustada.

Olha ao redor, paredes brancas. Respira fundo. Apesar da aparência fria do lugar, ela está quente. Está viva!

Teve um sonho esquisito, sonhou com asas, chifres... Coisas que nem saberia descrever!

Tentou levantar-se, devagar. Seu corpo doía muito, em especial seu peito. As luzes estavam apagadas, mas ela parecia enxergar muito bem sem luz. Jogou no chão o lençol branco que a cobria, e levantou-se.

Haviam várias mesas, e um corpo em cada uma delas, alguns queimados, mutilados.

Mas tinha uma outra mulher, na mesa do canto. Parecia estar sorrindo, como se estivesse muito feliz... Mas não estava.

Ela, e todos os outros, estavam mortos.

"Que lugar é esse?"

O despertar de Nadya, o anjo caído de Sistinas. - Sistinas, contos de vampiros eróticos

Instintivamente, a estranha checa seu próprio corpo. Como que esperando estar dilacerada também, apesar de saber, ou pensar saber, que estava viva. Seu peito estava perfurado. Um buraco grande, que estranhamente não doía. Passou a mão, temerosamente. Só quando tentou enfiar o dedo para saber a profundidade do buraco, é que ela sentiu alguma dor.

Olhou novamente ao redor. Nada de roupas! Pegou um lençol, e se enrolou nele. Já sabia que estava num necrotério, mas como chegou ali?

Precisava pensar. Será que estava presa? Alguém abriria se ela simplesmente batesse? Foi andando até a porta, e olhou por uma janelinha de vidro, que se abria no meio dela.

O que viu foi apenas um corredor escuro, mergulhado em silêncio. E a estranha percebeu nesse momento que podia ouvir muito mais do que o normal. O vento. Sentia o vento ondulando tudo, naquele silencioso quarto, ela podia ouví-lo!

Abriu a porta, e saiu. Olhando para os lados, viu seu reflexo no vidro. Tinha algo nas costas? Olhando direito, pareciam grandes cicatrizes, uma de cada lado, quase na altura dos ombros.

"O que é isso?"

Mas ela não teve tempo de analisar as cicatrizes direito. Estava distraída, quando um homem abriu a porta do lado oposto do corredor. Pelo uniforme, parecia ser um vigia.

-Ei!

Ela se virou assustada, e uma rajada fortíssima de vento derrubou o homem.

"Ventania?? Eu, eu me lembro!!"

Dominada por uma súbita confiança, a mulher correu em direção à janela, e pulou contra ela. O lençol esvoaçante lembrava um par de asas enquanto caía, em direção à rua lá embaixo.

O segurança correu até a janela quebrada, e viu a mulher planando até a rua, de onde correu e sumiu na escuridão da noite.

-Doug? Que houve? - perguntou outro homem, ao chegar no corredor e ver o vigia parado na janela, coçando a cabeça.

-Acabo de ver um anjo... - resmungou Doug.

-Por que diz isso?

-Você não viu? Ela voôu!

-Ela quem?

-Veja se não está faltando um corpo na sala ao lado. Eu acho que está!

O homem invadiu a sala e começou a procurar. Faltava um corpo sim.

-Cadê a ficha dela?

-Não está aí?

Os homens se entreolharam por um minuto...

-Você quer uma cerveja, Doug?

-Acho que vou aceitar, isso foi demais para mim.

-Acalme-se Doug. Ela não tinha ficha. Arranjaremos uma desculpa para a janela quebrada, e tudo bem, certo?

-Eram oito andares, Jim...

-Melhor esquecermos. Eu, por exemplo, não vi nada do que está me dizendo!

-Ok, ok. Cadê a cerva?


Em algum lugar abaixo, a mulher andava com dificuldade. Não parecia machucada. Estava era muito confusa. Fragmentos de memórias, iam e vinham.

"Quem sou eu? Estou morta? Ou viva?"

Ainda enrolada com o que restou do lençol do necrotério, a mulher parecia perdida. Lembrava-se do vento, da liberdade, e também de sua queda.

"Asas?" - colocou as mãos cruzadas sobre os ombros, tentando alcançar as duas cicatrizes que levava nas costas. Algo como uma memória ancestral, estranha, porém familiar demais, a atingiu. Caiu de joelhos.

"Anjos? ANJOS!"

Olhou para a ferida aberta em seu peito. Colocou a mão por cima dela, e a ferida lentamente se fechou. De repente, adquiriu total consciência do que era, de onde vinha, e do seu trabalho.

"Eu caço e destruo... o Mal!"

Cheirou à sua volta. Tinha dons maravilhosos. Era a senhora dos ventos. Essa era a sua herança divina!

Estava maravilhada. As lembranças voltando aos poucos. Tempos imemoriais, via legiões celestes, anjos empunhando espadas de puro fogo. Era uma criatura celeste!

Quando ouviu um grito, sua concentração sumiu, e a rua voltou a ser escura. Não via mais os anjos, nem espadas. Procurou a origem daquele grito. Então ela percebeu que podia comandar os sons também, que iam e voltavam, seguindo seus comandos.

Tudo se propagava pelo ar. O som, a vida, doenças, e mortais não vivem sem ar, e ela podia comandá-lo!


-Sua puta! Como teve coragem? Ele te pagou muito bem!!

-Ele e os amigos quiseram me espancar! Entenda, eu tive que fugir!

-Mas era um cliente! Um maldito cliente! Sabe quando ele vai querer minhas garotas novamente? Nunca mais! Tudo por causa de uma vadia como você, que eu dei abrigo e dinheiro. Não acredito, uma puta me prejudicou!

-Calma, prometo trabalhar dobrado. O que você quiser, mas nunca mais volto lá!

-Acho que não está entendendo. Hoje você sujou o nosso nome. Esse cliente não volta mais!

-Prometo dobrar meus serviços...

-Você pode consertar isso, Lisa. Basta voltar lá.

-Não faça isso comigo... Leva outra garota. A Mandy, por exemplo. Ela sempre topa.

-Eles querem você. Como acha que eu te encontrei? Eles me ligaram assim que você sumiu! Propus outra garota, mas não. Eles querem a putinha que fugiu. E sabe o que mais? Eu não investi tanto tempo e dinheiro para que recuse trabalho. Vai voltar lá, e vai voltar agora!

Lisa começou a chorar. Nunca havia rezado antes. Naquela noite, após dezoito anos de vida, começou a rezar. As lágrimas escorriam em seu rosto. Sabia o que esperava por ela. Seria espancada.

"Malditos pervertidos!" - pensou. Mandy sempre falava sobre esses tipos, mas Lisa nunca encontrara um antes. Apenas programas normais. Mas, naquela noite, ela encontrou um grupo deles.

-Vamos Lisa. Relaxe. Você supera tudo com o tempo.

-Não me mande voltar, por favor. Eu não vou suportar!

-Ah, vai sim! - dizendo isso, o homem pegou no braço de Lisa com força. Arrastava a moça em direção ao carro, quando viu aquilo na sua frente.

-Ei? Saia da minha frente!

Uma ventania o jogou na parede. Caiu, sem poder respirar direito. Viu então Lisa correr em direção à estranha mulher de branco.

-Volte aqui sua vadia!! - gritou o homem, puxando um revólver.

-Impressionante como vocês, mortais, se escondem atrás desses brinquedos de morte. Deixe-me te mostrar o que é poder!

O homem foi novamente erguido pelos ventos que sopravam, vindos de lugar algum. O revólver voôu longe. Lisa, escondida atrás da estranha mulher, apenas observava, sem reação alguma.

-Quem é você?? - perguntou o homem, grudado na parede pela ventania. Não conseguia nem ao menos se mover.

-Meu nome é Nadya. Mas, para você e outros de sua laia, sou o fim. O julgamento. Sou a prova de que algo olha ainda por esse mundo. Você entende, animal?

Os ventos cessaram, e o homem resmungou algo, mas sua voz não saía. Quando tentou respirar, o ar não veio. Em pânico, começou a chorar. Sua pele adquiriu uma coloração azulada, sufocante. Ele ainda tentou ficar de pé, mas caiu logo depois. As mãos se contorciam, e pareciam buscar o ar que ele não conseguia respirar... Ainda sofreu algum tempo, até que caiu de vez na calçada. Morto.

Lisa controlava o choro, e soluçava baixinho. Tinha medo de que a mulher a matasse também.

-Quem é você?

-Vocês clamam por algo, e quando são atendidos, ficam se perguntando o que houve. Não há nada aqui, além do que você mesma viu, Elisabeth. Tire suas próprias conclusões.

Lisa caiu de joelhos, sem saber ao certo o por que fazia aquilo. Apenas, parecia ser o correto. Abaixou a cabeça, e quando olhou em volta, a brisa levava papéis pela rua. A mulher tinha sumido...

"Obrigada, Deus!" - pensou Lisa. Fez um rápido sinal da cruz e seguiu para casa.

Acima dela, Nadya observava a noite. Estranhamente, sentia-se como uma orfã que volta ao lar, sem saber direito onde ficava. Coberta apenas pelo lençol branco, sentia novamente as ondulações do ar em sua pele. Abriu um sorriso iluminado, e se sentiu mais viva que nunca!

"Estou de volta, e o meu trabalho será feito!"


Anjos são quase tão fascinantes para mim quanto os vampiros. Foi meio que natural escrever "Nadya", colocando uma criatura dessas em Sistinas.

Foi publicado originalmente em 09.06.01

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